domingo, 5 de setembro de 2010
"Dogma"
"Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito de uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina do meu carro
Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé no agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você
Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens a você
Sou do sereno poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe porque
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto ao piano
Estes versos pra você..."
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Noll
O inerte ser que aqui pulsa declara:
Sou,
em suma,
o nada.
E como a verocidade que consome a lição desaprendida tenho um prazo,
vivendo num piscar
como a cigarra lá fora,
a pleitear feito louca
a sua sobrevida...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Touchié!
Sob as pedras,
de mãos soltas,
admirados,
fitamo-nos demoradamente.
E numa eternidade
medida em segundos
enxergamos a tênue linha racional,
o fundo do mar sem nome,
o cerne do que é verde,
a íris petrificada...
Quando maravilhados, despertamos.
Ocre
Sinto nas pontas dos dedos
o trastejar da vontade contida
como a rasgar o piso frio
e o intrépido olhar
Apenas por escrever.
E se não o faço,
dada a urgência galopante que o tempo perdeu,
engorda a minha coleção particular de devaneios a resolver.
Pendências essas que criam pernas
e farejam minha presença
Somente por escrever.
Ou por fazer das mesmas partes minhas
abandonadas em becos sem luz.
Até que fiquem incredulas perante mim,
atrás das faíscas luminosas que brotam do meu peito...
... por escrever.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Hidrocolor
Da tinta do pálet
Da pesarosa intenção do materializar.
É como minha vida
Um borrado grande que impregna
Talvez porquê eu vivo a desenhar no escuro
No fundo da minha alma
E por lá, vez ou outra, não tem luz.
Mas não se diz que é com os olhos vendados que se enxerga pacientemente o mundo?
Não quero ver o que gostaria,
e sim aquilo que preciso...
Vou procurar mais pincéis,
encher o copo de rum,
quem sabe achar alguém
perdido no meio do traço vazio,
na dança dessa mistura...
na dança dessa mistura...
sábado, 14 de agosto de 2010
Junqueiro
A palavra
O medo
Sangue na bainha da espada
Impregnado pelo sol cortante
O grito que eu não dei
A mão que te abandonou
A linha invisível
O sopro derradeiro
O cair da pétala
Os segundos congelados
O deslizar na face salgada pela batalha interior...
E a lágrima caiu
e quedou silenciosa.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
O vácuo
Bitcho,
ando fatigada.
Talvez do mundo inteiro, lá fora da minha cabeça.
Sei lá, sabe gosto insosso de sopa de hospital?
Visita em casa de tia que ronca feito motor?
Sexo na mesma posição todo dia?
Mais ou menos isso...
Por quê as coisas de repente perdem o sentido de serem, de acontecerem?
Muitas vezes me refaço essa pergunta...
E quando me dou conta volto ao ponto inicial das coisas...
É que a reflexão sobre o fato de voltar atrás nas decisões me move incoerentemente,
coisa de gente doida...
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